A saudade sob a ótica da Soberania Divina
Lidar com a saudade sob a ótica da Soberania Divina é um dos exercícios mais profundos da vida cristã. Não devemos ver a soberania de Deus como um conceito frio ou mecânico, mas como o abraço de um Pai que governa cada detalhe da nossa existência com sabedoria infinita.
A saudade, para o cristão, é a "presença de uma ausência". É o eco de um amor que foi planejado por Deus antes da fundação do mundo. Tentei levantar algumas perspectivas bíblicas para moldar esse sentimento:
1 - A Saudade como Testemunho da Graça Comum: "Tudo o que Deus faz durará eternamente... e Deus faz isto para que os homens temam diante dele." (Eclesiastes 3:14)
Em Eclesiastes aprendemos que o tempo e os relacionamentos são dons de Deus. A tristeza que sentimos pela partida de alguém é, na verdade, um tributo ao valor da vida que Deus criou. Neste contexto, devemos entender a saudade como uma evidência da bondade de Deus. Se dói agora, é porque Deus, em Sua soberania, permitiu que você desfrutasse de um relacionamento precioso. A dor da perda é proporcional à bênção da convivência.
Ao sentir saudade, transforme a dor em uma oração de gratidão: "Obrigado, Senhor, por ter me concedido a convivência com (nome da pessoa) e por ter escrito a história dele junto à minha."
2 - A soberania que Chora: O Exemplo de Cristo - "Jesus chorou." (João 11:35)
Este é o menor versículo da Bíblia, mas um dos mais profundos. Jesus sabia que ressuscitaria Lázaro em poucos minutos — Ele tinha todo o poder e soberania sobre a morte — e, ainda assim, Ele chorou diante do túmulo do amigo. Buscar força, nesse momento de dor, não significa insensibilidade. A soberania de Deus não anula a nossa humanidade; ela a sustenta. Jesus chorou porque a morte é uma intrusa no mundo de Deus, um verdadeiro inimigo, vencido por Jesus. Você tem a liberdade bíblica de chorar e sentir o peso da separação, sabendo que o próprio Deus encarnado santificou as nossas lágrimas de luto.
3 - O Conforto no Decreto Divino - "Os teus olhos viram a minha substância ainda informe, e no teu livro foram escritos os dias adiante determinados, quando não havia nem um deles sequer." (Salmo 139:16)
Cremos que a morte não é um acidente de percurso ou um erro de cálculo do destino. Para Deus, não existe "morte prematura". Cada fôlego de vida é determinado pelo Seu decreto soberano.
Quando a saudade apertar e surgir o pensamento de que tudo poderia ser diferente, descanse na certeza de que o Senhor da Vida cumpriu cabalmente o propósito que designou a quem nos deixou. A soberania divina nos livra da culpa do "e se...". O tempo de Deus é perfeito, mesmo quando não o compreendemos plenamente deste lado da eternidade.
4 - O "Ainda Não" e a Glória Futura - "Pois a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um eterno peso de glória, acima de toda comparação." (2 Coríntios 4:17)
Paulo usa termos de peso e medida. Ele compara a dor atual (leve e momentânea, diante da dor de Cristo) com a eternidade (peso de glória que ganhamos na paixão e ressurreição de Cristo).
A saudade é o que nos lembra que este mundo não é a nossa casa definitiva. Ela nos faz ansiar pelo dia em que a soberania de Deus será manifesta na restauração de todas as coisas. Para o cristão, a saudade tem um "prazo de validade", mas a comunhão que teremos na glória é eterna.
Pensamento final
Faço aqui uma citação de um filósofo John Flavel: "As afeições não devem ser extirpadas, mas reguladas." Não tente eliminar a saudade, mas permita que ela seja regulada pela confiança de que Deus está no trono.
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