O PAI QUE NOS VÊ DE LONGE
“Continuou: Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele lhes repartiu os haveres. Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou e beijou. E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar-se.”
O Deus que continua sendo Pai
Há algo profundamente comovente nesta parábola: O filho parte, ele rejeita a casa, rejeita a autoridade do pai e pede antecipadamente aquilo que receberia como herança. Em outras palavras, deseja os bens do pai, mas não deseja a presença do pai. Ele vai embora para uma terra distante. E talvez seja justamente aqui que começamos a compreender a profundidade do amor de Deus, nosso Pai.
Jesus não está apresentando um filho que se afastou porque seu pai deixou de amá-lo. O filho se afastou porque seu coração estava distante.
A Bíblia é muito realista acerca do coração humano. O pecado não é apenas cometer determinadas coisas erradas. O pecado é, antes de tudo, voltar-se para longe de Deus, desejar a vida sem Deus, querer os dons sem o Doador.
O filho queria a herança, mas não queria o pai. E será que nós fazemos o mesmo com Deus?
Muitas vezes queremos a proteção de Deus, mas não queremos sua autoridade. Queremos suas bênçãos, mas não necessariamente sua vontade. Queremos que Deus cuide de nossos caminhos, mas preferimos escolher os caminhos por nós mesmos.
Entretanto, há algo maravilhoso na narrativa: o filho se afasta, mas o pai não deixa de ser pai.
Ele não aprova o pecado do filho. Não chama o erro de acerto. Não transforma rebeldia em virtude.
Mas o relacionamento não deixa de existir. É essa verdade que deve nos conduzir a uma compreensão preciosa da graça.
O Pai que ama
O filho vai embora e desperdiça tudo. Ele perde seus recursos, sua dignidade, sua segurança e, finalmente, sua esperança. Mas, quando chega ao fundo do poço, lembra-se da casa do pai.
“Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!”
Observe que ele não pensa primeiro na casa. Ele pensa nas ações do pai. E então decide voltar.
O retorno do filho não deve ser interpretado como uma espécie de autossalvação. É Deus quem opera a transformação do coração. É a graça que nos desperta, nos faz reconhecer nossa miséria, nos conduz ao arrependimento, nos faz olhar novamente para a casa do Pai.
E quando o pecador volta, descobre algo extraordinário: o Pai estava esperando.
Lucas diz: “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou...”
O filho ainda estava longe, ainda não havia chegado, ainda não havia conseguido explicar tudo, ainda não havia reconstruído sua vida. ainda não havia demonstrado que seria digno. Mas o pai o viu. Essa pequena frase é uma das imagens mais belas da graça em toda a Bíblia.: “Quando seu pai o avistou.”
O pai reconhece o filho quando ele ainda está distante.
O Pai que cuida
Talvez alguém possa perguntar: “Se o pai o amava tanto, por que permitiu que ele fosse embora?”
A parábola não responde a todas as perguntas que gostaríamos de fazer. Mas ela nos ensina algo sobre o cuidado de Deus. O cuidado de Deus não significa que Ele impedirá todas as consequências das nossas escolhas. Às vezes, Deus nos permite experimentar o resultado doloroso de nossos caminhos para que compreendamos novamente a preciosidade da sua casa.
O filho precisou descobrir que a terra distante não era seu lar, que os prazeres prometidos pelo pecado eram incapazes de satisfazer sua alma, que aquilo que parecia liberdade era, na verdade, escravidão. E, quando tudo desmoronou, ele se lembrou do pai.
Há momentos em que também perguntamos: “Deus está cuidando de mim?” E talvez a resposta de Lucas 15 seja: Sim, mesmo quando você não consegue perceber. O cuidado de Deus nem sempre se manifesta retirando imediatamente a dificuldade. Às vezes, manifesta-se sustentando-nos dentro dela, abrindo nossos olhos, permitindo que percebamos nossa própria fragilidade, fazendo-nos voltar para casa.
A providência de Deus não significa uma vida sem sofrimento. Significa que nenhum sofrimento está fora do governo daquele que é nosso Pai.
O Pai que perdoa
Quando o filho finalmente volta, ele prepara um discurso: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho...”
Ele reconhece seu pecado. Não apresenta desculpas, nem culpa os amigos ou a fome. E, também, não culpa as circunstâncias.
Não diz: “Pai, eu errei porque você não me deu atenção.”
Ele simplesmente confessa: “Pequei.”
Esse é o caminho do verdadeiro arrependimento. O arrependimento não é uma tentativa de comprar o perdão de Deus. Não somos perdoados porque conseguimos produzir uma quantidade suficiente de lágrimas, sofrimento ou boas obras. Somos perdoados pela graça.
O arrependimento verdadeiro é a resposta de um coração alcançado pela graça. E então acontece algo surpreendente: O pai não permite que o filho termine sua negociação.
O filho pensa: “Talvez eu possa ser apenas um trabalhador.”
Mas o pai responde com restauração. “Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés...”
O pai não o recebe como empregado. Recebe-o como filho.
Aqui encontramos mais uma das grandes verdades do evangelho: Deus não apenas perdoa o pecador; Ele o recebe em sua família. Isso é muito maior do que simplesmente escapar da condenação: Em Cristo, o pecador é recebido como filho.
Devemos nos lembrar que a salvação não termina no perdão. Deus nos reconcilia consigo e nos concede uma nova posição diante dele. Somos recebidos na casa. Temos um Pai uma família, um lar.
O Pai que protege
Quando pensamos em proteção, geralmente imaginamos alguém impedindo que algo ruim aconteça. Mas, a proteção de Deus é maior do que isso. Deus nos protege também conduzindo-nos de volta quando nos afastamos.
O filho dessa parábola de Jesus experimentou a distância, a fome, a humilhação e a perda. Mas a história dele não terminou no lugar para onde foi. Terminou na casa do pai. Note como isso deve ser consolador para nós, cristãos, pois se trata de uma das grandes consolações do cristão.
Nossa segurança última não está na nossa capacidade de permanecer firmes. Está na fidelidade daquele que nos sustenta.Aqueles que verdadeiramente pertencem a Cristo são preservados pela graça de Deus. IssoNão significa dizer que nunca cairão. Significa que Deus não abandona os seus. Ele é um Pai que corrige, que disciplina, que nos chama, nos restaura, nos sustenta e nos conduz até o fim.
O Pai que nos vê
Há uma expressão no texto que merece permanecer em nosso coração: “Seu pai o avistou.” Antes que o filho chegasse, o pai o viu. Não sabemos quanto tempo havia passado, nem quantas vezes o pai teria olhado para aquela estrada. Jesus não nos conta. Mas, sabemos que, quando o filho apareceu no horizonte, o pai o reconheceu. Isso nos fala de um Deus que não é indiferente.
Nosso Pai celestial não é uma força impessoal. Não é um Deus distante e frio. É o Deus que conhece os seus, que vê, ouve, sustenta e guarda. O Deus que conhece nossas lágrimas antes mesmo que elas sejam derramadas. O Deus diante de quem não conseguimos esconder nada.
O Salmo 139 nos lembra que não existe lugar onde possamos fugir da presença de Deus. E isso pode ser assustador para quem vive em pecado. Mas, para o filho de Deus, é profundamente consolador.
Aquele que nos vê é também aquele que nos ama.
Deus conhece nossas fraquezas, nossos medos, nossas quedas, nossas lutas, nossas noites difíceis e tudo aquilo que ninguém mais conhece. E, ainda assim, em Cristo, Ele nos chama de seus,
Neste Dia dos Pais
Talvez hoje você esteja celebrando seu pai, talvez esteja ao lado dele ou longe. Se teve a mesma sorte que eu, recebeu amor, cuidado e proteção. Pode ser que experiência tenha sido diferente.
É possível que Dia dos Pais traga lembranças bonitas, traga saudade. Caso seu pai tenha falhado profundamente com vocÊ, esse dia pode ser que traga feridas.
A Bíblia não nos pede para chamar de perfeito aquilo que foi imperfeito. Pais humanos falham, podem abandonar, podem errar e não saber amar como deveriam. Pais podem morrer e, com isso, podem estar ausentes. Assim como podem estar ausentes, mesmo que vivos.
Mas Lucas 15 nos conduz para além da figura do pai humano. Ele nos apresenta uma realidade infinitamente maior: TEMOS UM PAI PERFEITO.
Deus é um Pai que nunca falha, não abandona, não dorme. É um Pai que conhece seus filhos, que disciplina sem crueldade, Um Pai que corrige porque ama. É um Pai que perdoa, protege, sustenta. É um Pai que vê de longe, que recebe o arrependido, que se alegra quando o perdido é encontrado.
E tudo isso encontra sua expressão definitiva em Jesus Cristo. Porque não podemos compreender adequadamente a paternidade de Deus olhando apenas para a experiência humana. Precisamos olhar para o Filho. É em Cristo que conhecemos verdadeiramente o Pai. Jesus veio ao mundo para reconciliar pecadores com Deus. Na cruz, Cristo levou sobre si a culpa de nós, os pecadores. Ali vemos simultaneamente a justiça e a graça de Deus.
Deus não simplesmente ignora o pecado. O pecado é julgado. Mas o julgamento que deveria cair sobre nós foi suportado por Cristo. Por isso podemos voltar para casa. Não porque somos bons filhos, mas porque temos um Salvador perfeito.
Para guardar no coração
Neste Dia dos Pais, talvez a melhor pergunta não seja apenas: “Que tipo de pai eu tive?” Mas também:
“Que tipo de Pai tenho em Deus?” Se você está em Cristo, pode descansar nesta verdade: você pertence ao Pai.
Ele continua sendo Pai quando estiver cansado, quando estiver confuso, quando cair, quando precisar de perdão. Ele continua sendo Pai Quando estiver com medo, quando não souber o que fazer, quando ninguém perceber suas lágrimas, quando você atravessar o vale. Quando sua força terminar, a graça dele não terminará. E quando nossa caminhada nesta terra chegar ao fim, o Pai continuará sendo nosso Pai. Porque a nossa esperança não está na força com que seguramos a mão de Deus. Nossa esperança está na mão de Deus que nos segura.
O filho voltou para casa. E descobriu que, antes mesmo de conseguir chegar ao pai, o pai já o havia visto. Essa é a beleza da graça de Deus: Ele nos chama mesmo se afastamos. Se nós pecamos e caímos, Ele nos sustenta. Ele nos conduz ao arrependimento. Se voltamos, nos recebe. Se somos indignos, Ele nos dá a graça. a.
Enfim, o Pai nos vê, nos ama, nos perdoa, nos protege. cuida de nós e nos sustenta. E o Pai nunca abandona os seus.
Oração
Pai nosso,
Neste Dia dos Pais, nós te agradecemos porque, acima de toda experiência humana de paternidade, temos em ti o Pai perfeito.
Obrigado porque nos amas não por causa dos nossos méritos, mas por causa da tua graça.
Obrigado porque, quando nos afastamos, não deixas de nos chamar.
Quando pecamos, conduzes-nos ao arrependimento.
Quando caímos, sustentas-nos.
Quando estamos com medo, proteges-nos.
Quando não sabemos o caminho, tua providência nos conduz.
Quando não conseguimos enxergar tua presença, tu continuas nos vendo.
Perdoa os nossos pecados e dá-nos um coração verdadeiramente arrependido.
Ensina-nos a descansar em Cristo e a viver como filhos que reconhecem a bondade do Pai.
E, para aqueles que são pais, dá-lhes sabedoria, paciência, firmeza, ternura e temor do Senhor, para que possam refletir, ainda que imperfeitamente, o amor daquele que é o Pai perfeito.
Consola também aqueles que, como eu, carregam hoje a dor da ausência, da perda ou das feridas relacionadas à paternidade.
Que todos nós possamos encontrar descanso na certeza de que, em Cristo, seu filho e nosso Senhor amado, não somos órfãos.
Temos um Deus que é nosso Pai. E teu amor, Senhor, nunca nos abandona.
Em nome de Jesus Cristo.
Amém.
Texto de Rogério Souza.
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